quinta-feira, 7 de maio de 2009

Quebra de rotina

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Chegou em casa. Cumprimentou a esposa, abriu a geladeira, pegou uma cerveja e deixou-se cair no sofá, em frente à televisão. Com o controle na mão, mudava constantemente de canal. Olhar ao léu. Preocupado, sentia-se estranho desde o último serviço. Os programas passavam por seus olhos distraídos, quando viu num noticiário policial o retrato falado de um assassino profissional. O coração bateu forte. E agora? O desenho não é bom, mas posso ser reconhecido.

Desde o último crime, sentia que não havia sido perfeito. Lembrou-se que havia sentado no chão, encostado à parede fria, mãos na cabeça, a olhar para a vítima ensanguentada. Parecia ter esquecido de um detalhe. E pensou no primeiro crime que cometera. Sabia que mesmo que em cada caso houvesse um inusitado requinte de crueldade, fazia tudo sempre igual. Era conhecido como Judas Iscariotes, por pendurar suas vítimas numa corda e abrir seu abdômen em forma de cruz, espalhando as vísceras pelo chão. Nunca se esquecia de pronunciar o viático sacramentum exeuntium, para a boa viagem de cada uma.

A televisão ainda ligada. Já pensava alto. Da cozinha, sua esposa pergunta:

- Sim, meu bem?
- Nada, não.

O entrevistador conversa com uma pessoa que diz saber quem é Judas, mas que não quer ser reconhecida. Ela está numa sala escura, de costas, e sua voz é distorcida. De olhos arregalados, Judas grita. A esposa vem em sua direção, mãos ensaboadas, perguntando o que havia acontecido.

- Foi você, sua cadela!
- O quê?!
- Eu reconheci o cabelo crespo e a blusa listrada!

Sem falar mais, vai à cozinha seguido da esposa embasbacada, que perguntava qual era o problema. Pega uma faca na gaveta, vira-se e a enfia no umbigo da esposa. Tapa a boca dela com a mão. Corte em cruz. Sobe para o quarto do filho. Algum tempo depois, a polícia chega com a vizinha de Judas, dizendo que havia ouvido ruídos estranhos na casa.

- É ele? pergunta o policial, apontando para um corpo inerte.
- Sim, é ele, responde a vizinha. Tinha cabelo crespo e usava blusa listrada.
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Moral da história: não compre na Renner.
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7 comentários:

  1. Como diria o Mathias Schaf, com seu inconfundível sotaque:

    O que é isso, menina? Matar uma pessoa como se mata um porrrco!

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  2. Hahahahha...mto comentário do Mathias!!

    Que massa esse conto, Edna...que venha o próximo!

    Cheers

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  3. Huahauhuahuah..... muito bom!!
    Nossa, a moral eh perfeitaaa!!!

    E... boa a lembranca do Mathias.

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  4. e não é que a amiga é boa na faca? e afinal, quem disse q moral da história tava em baixa? grande final, edna!

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  5. Yes, this is my darkside of the moon.

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  6. bah, belo conto, belo blog. seguirei!

    joão.

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