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domingo, 28 de novembro de 2010

Carta perdida

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Num canto da calçada da R. Hoffmann, sombreada por uma parede velha de retintos descascados, havia uma folha de papel dobrada. Poderia ser mais um papel jogado e esquecido, derretido por chuvas ou varrido pelos garis da cidade, não fosse minha curiosidade, dizem uns feminina. Talvez porque aquela folha estava assim limpinha, dobrada não a esmo, parecia pedinchar por atenção. Vi nas dobras até um beicinho pidão, do tipo "me tira desse descaso".
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Olhei à minha volta, um tanto constrangida por declarar publicamente minha curiosidade pelo suposto lixo desprezado. Não havia ninguém na rua, peguei então a folha. "Rápido!" Caminhei naturalmente, mas fui desdobrando o papel imediatamente, em descompasso com meus passos, agora mais lentos. A letra era linda, ao estilo daqueles comerciais de banco "preenchendo cheque com caneta tinteiro". Por que alguém embeleza assim um papel que seria jogado? Seria um relato desistido de destinatário, esmerado a princípio e, por força de renúncia, abandonado ali no chão? Ainda assim, parecia esperançado de que alguém que jamais seria visto e encontrado pudesse ler seus pensamentos que ali eram divididos com um interlocutor coletivo. Afinal, o papel não estava amassado (daquele amassado proibitivo, cheirando a keep out). Seria, quem sabe, uma carta aberta ao mundo, deixada à sorte e à mercê do tempo, de um talvez, de transeuntes curiosos, da mira certeira de algum cãozinho de pata traseira levantada... ou talvez seria parte de um diário, cuja folha faltante estava justamente ali, como página aberta a um qualquer alterleitor.
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A escritora (sim, é uma escritora, sempre sei quando é) parecia desesperada, tentando um contato com alguém que sequer sabia quem era, falando inutilmente à twitter. Li seu texto, um relato lamurioso e dolorido. Não havia assinatura nem qualquer referência. Por isso não pude sequer dizer que a ouvi e compreendi e que fui tocada por sua história. Ainda que tal texto não tenha sido destinado a mim, a cada linha percorrida eu me identificava mais com a escritora... seríamos todos partilhantes de mesmas dores e sonhos malogrados? Um outro alguém que teria lido esse texto sentiria o mesmo que nós?
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Estaquei no meio do caminho. Não me senti no direito de manter comigo aquela folha. Voltei, então, à Hoffmann e deixei o papel dobrado no mesmo lugar, para um próximo leitor... quem sabe o real destinatário mora por ali mesmo? Não sei, é o que digo, mas sei que se há grandes mensagens que revelam o eu mais profundo, podem ter ido para a lata do lixo ainda nesta manhã de domingo.
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Da parda caixa

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Estive mexendo na minha velha caixa de poemas. Ah, você não sabe sobre minha caixa? É um pequeno baú de lembranças, onde guardo textos meus, de pessoas que me são queridas, assim como de poetas que admiro. Tenho essa caixa desde meus 15 anos. Sim, faz tempo, mas, ao contrário do que se possa imaginar, não tem tanta coisa assim lá, pois desde sempre sou muito seletiva: na minha caixa só entra o que me toca e o que eu amo. Por consequência, quando o-que-de-quem acaba entrando na caixa, pode ter certeza de que o quem-do-que é especial.
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Hoje, ao fuçar-lembrar, acabei me deparando com um textinho meu dos idos anos 80. Findos, mas 80. Era um pedaço rasgado - um rasgado esmerado - de uma folha de caderno já amarelada. E os picotes ainda pendiam lá. O cheiro era de papel guardado, só que de um tipo especial: cheiro de colégio, de pré-adolescência, de anos 80. E lembrei que sentia saudade de caderno de colégio, com aquelas linhas horizontais azul celeste de um paralelismo tão obediente e aquela linha rosada vertical, desenrolada sobre as azuis feito tapete vermelho, anunciando a chegada da irmã-professora, da sineta e do cabeçalho. No centro do pedaço de papel havia uma frase, escrita a caneta esferográfica azul, com manchas de tinta típicas dos canhotos, que, seja pela direção da escrita, seja pelo tipo de tinta, acabam manchando o papel ao esfregarem os dedos sobre as letras recentes.
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Frase curta, nada breve.
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"A vida seria tão mais fácil se a gente pudesse encontrar um ou
dois amigos verdadeiros numa prateleira de supermercado..."

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Incrível é que algumas coisas não mudam. Nem pra mim... nem pra você. Eu ainda uso os dedos de uma só mão para numerar esses raros seres tão procurados. E você?
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Gostou do texto? Divulgue. Mas divulgue também a fonte, este blog. Obrigada.
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domingo, 8 de agosto de 2010

Morar sozinho

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Moro só há algum tempo. Ainda estou me adaptando e aprendendo a conviver somente com a companhia de me-myself-and-I.
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Viver só tem suas dores e maravilhas. É preciso estar atento a isso, antes de tentar um voo solo, visto que nem tudo são flores na vida a um. O fotógrafo Peter J. Wilson já mencionou algo a respeito disso num texto que acompanha uma foto sua intitulada There's no poetry in being alone: "a solidão pode inspirar poesia. O isolamento pode trazer bons momentos para fazer poesia. Mas não há poesia alguma no sentimento de se estar só". No meu caso, tenho conhecido os dois lados dessa moeda. De um, é ótimo ter a liberdade de fazer o que quero quando e como quiser; organizar e limpar a casa, sabendo que tudo estará do jeito que eu deixei; ter todo o espaço somente para mim; receber colegas e amigos em casa a qualquer hora. Já a outra face é mais obscura: como é difícil o período de adaptação à vida solitária; fazer várias refeições sem companhia; não ter com quem conversar; chegar em casa e saber que não tem ninguém ali esperando por mim.
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Como, então, morar sozinho e muito bem, obrigado? Tenho testado e desenvolvido algumas receitas, que enumero a seguir.
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1. Deixe a TV ou som ligado à medida do possível. Um barulhinho sempre ajuda a espantar aquele silêncio que traz a sensação de solidão. Apesar de gostar do silêncio, uso essa técnica com certa frequência. E funciona.
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2. Se você gosta, mantenha o MSN ligado. Assim, sempre aparece alguém legal com quem você pode conversar um pouco e compartilhar alegrias. Como moro longe da minha cidade (sou do interior do Paraná e moro em Porto Alegre), muitos amigos de longa data moram longe. O MSN acaba sendo a ponte que me une a esses parentes e amigos amados e distantes. E sem qualquer custo de ligação.
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3. Se puder, tenha um animal de estimação ou planta(s) para cuidar. Um animal é uma companhia agradabilíssima: é carinhoso, brincalhão; ele te procura, faz carinho e demonstra o que sente. E não liga se a casa é luxuosa ou simples. É o mais fiel, sincero e desapegado dos amigos. E não receie parecer louco: converse com ele, conte-lhe seus dilemas e sonhos. Assim você dá atenção ao bichinho e também extravasa seus sentimentos. Ter animais ou plantas ajuda a focar em um outro ser que não você mesmo. Eu, por exemplo, tenho plantas ornamentais e um pequeno herbário. Elas sempre respondem ao meu carinho dando folhas viçosas, flores e cor ao meu apartamento.
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4. Procure criar vínculos com as pessoas, não se isole. Morar só não significa permanecer só. Convide pessoas para vir na sua casa, tomar um chimarrão, um cafezinho, um almoço. Saia com elas para um parque, praça ou até mesmo para uma caminhada em dupla, trio. Esse passo possibilita o estreitamento de relacionamentos não-virtuais, principalmente para aqueles que tendem a usar a internet como principal veículo relacional. Interagir ao vivo com outros é também, além de estimulante, uma oportunidade para dar e receber abraço, distribuir afetos que a internet impossibilitaria. Senão você vai ficar falando só com as plantas, que, apesar de boas ouvintes, são um tanto lacônicas e nunca dão bons conselhos.
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5. Crie uma rotina diária. Estabelecer horários para as atividades ajuda a dar a sensação de que sua vida está organizada, controlada, assim como faz você se sentir melhor consigo. Se você tem dificuldade para isso, monte um quadro de horários, distribuindo suas atividades da semana. Mas cuidado: não se esqueça de reservar um tempo satisfatório para descanso e lazer. Assim sua vida será mais colorida, relaxante e realizadora. Ninguém realiza nem produz nada satisfatoriamente se não descansar satisfatoriamente.
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6. Tenha um hobby, entre para uma ONG ou faça parte de um clube. Essa é nova para mim também. Decidi que entrarei para um clube ou confraria. Assim faço algo interessante, faço um bem às pessoas e ao mundo e conheço mais pessoas, estabelecendo novos vínculos. Quando puder, escreverei mais sobre isso.
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7. Procure se alimentar direito. Muita gente que mora sozinha e que não tem grana para comer fora, acaba optando por aqueles congelados assustadores, como lasanhas ou pizzas (cuja "foto meramente ilustrativa" difere totalmente do conteúdo da caixa), além do tradicional macarrão instantâneo. Desnecessário é dizer que tal opção, apesar de justificável pela falta de tempo, não é nada saudável. Acredite: é possível, sim, cozinhar pratos saudáveis, gostosos, rápidos e baratos! E para se sentir estimulado, tenha temperos diferentes e variados à mão. Eles deixam o prato mais saboroso, além de tornarem o ato de cozinhar mais interessante, "alquímico" e carinhoso (sim, cozinhar é se acarinhar!). Eu costumo fazer o seguinte: sempre que preparo um prato, faço-o numa quantidade maior do que o necessário para uma única refeição. Assim, guardo o excedente em potinhos individuais no freezer. Dessa forma, terei sempre refeições variadas prontinhas, sem ir pro fogão todos os dias. Se você não tem freezer, pode usar o congelador (a diferença é que, no congelador, o prato deve ser consumido logo). Esse procedimento economiza tempo, gás, dinheiro, além de evitar muita louça suja: é só esquentar o potinho no microondas! Pra mim, inclusive, virou um hobby gratificante. É tão bom se fazer bem comendo bem!
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8. Crie atitudes de autopreservação. Cuidado com os folhetos do tipo "conserto tudo" que aparecem na sua caixa do correio. Pode ser alguém mal intencionado tentando ter acesso à sua casa. Há relatos (comprovados) de vítimas de falsos encanadores, pintores etc. Prefira profissionais indicados pelo síndico do seu prédio, que já os testou e aprovou. Observe também atitudes suspeitas de estranhos na rua e ao se aproximar (ou sair) de casa. Ouça seus instintos. Melhor achar que exagerou em cuidados do que ser ser vítima de violência. Além disso, tenha o telefone de alguém em quem você confia e que more perto de você para casos de emergência.
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Tenho tentado pôr em prática esses itens. Ajudam, mas não são tudo, porque nada substitui o convívio com outras pessoas. Por isso lembre-se: morar só não implica em ser só.
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quarta-feira, 10 de março de 2010

Um pouco de botânica familiar...

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Castro é uma cidadezinha muito charmosa. Ao voltar das minhas férias passadas lá, olho para as fotos que tirei e penso nas várias qualidades desse lugar desconhecido por tantos: a arquitetura portuguesa no centro da cidade, as colônias de imigrantes europeus, os tantos museus e casas culturais, as quedas d'água e canyons, assim como a cidade quase sempre encoberta pela neblina, que são só uma amostra do lugar. O que mais interessa em Castro para mim, no entanto, são as raízes. As minhas raízes.
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Dez anos atrás fui embora de Castro deixando muito para trás. Deixei também algo que sempre me traria de volta, que me daria a sensação de pertencimento... as tais raízes, uma destinação natural. É incrível como o tempo e a distância não alteram esse sentimento de ninhada, de balaio-de-gato, e, quando revisito meu próprio interior, identifico que essas raízes espalham-se, espiralam-se e fixam-se em tudo o que sou. Morei em diversos lugares, convivi com muitas pessoas, mas meus sonhos à noite quase sempre são castrenses. É onde me sinto verdadeiramente em casa. Bem, tal sentimento é plenamente justificável: Castro é justamente onde nasci, onde vivi por 26 anos; é onde fica a casa da minha infância, onde vivem as pessoas que amo e que me amam de verdade. O caso é que não importa o quão longe eu esteja longe da minha sementeira, eu de fato nunca vou me esquecer do barulho dos pardais cantando às 6 da manhã na janela do meu quarto, do pão de alho da minha mãe, do olhar sorridente da minha avó, das velhas rusgas com meu irmão, das piadas do meu pai, da risada da minha sobrinha nem dos amigos que estão lá e que também tornaram meus dias em Castro mais felizes.
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No final das contas, são as raízes familiares que me mantêm em pé, são elas que me nutrem e que me dão segurança, e é por elas que volto às minhas origens sempre que posso. É como os castrenses dizem: "quem bebe água do Iapó, sempre volta". E eu acrescento: volta pra casa.
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Continho em Si Maior

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Para Si
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Quando se apaixonava ouvia sons musicais. Róseos acordes bemóis. Mas não se dava conta disso. Quando o conheceu, o mundo ficou então mais colorido e sonoro, só que a vida dela deixou o pianíssimo de lado para alternar-se entre staccatos e quiálteras de um relacionamento um tanto conturbado. Se dependesse dela, tudo pra eles seria permeado pelo alegretto giocoso e romântico, enquanto que para ele a manutenção do namoro estava alicerçada num agregado sonoro bem intervalado e na liberdade do ad libidum dos intérpretes afetados. Aí começou o adágio dissonante e decrescente.
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Tempos depois, após o fim dessa pequena sinfonia a quatro mãos (e sem direito a bis), veio a prova de fogo. A noite era chuvosa. Ela estava entre amigos. Ele também. Encontraram-se por acaso, e, entre sushis e wasabi, o som que ela ouviu foi de desafino. Notas desconfortáveis e polifônicas, sem cadência, ensaio atonal de orquestra crescendo para um fortíssimo pulsante e furioso. Desse jeito, a noite tinha tudo pra terminar num melancólico noturno. Ali mesmo, no entanto, a música foi outra. Tudo porque ela havia resolvido seguir outros sons e experimentar um novo estilo. Partiu pro rock e pros solos de guitarra. Foi quando descobriu que não havia mais bemóis. Tinha se tornado Si Maior.
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E ele ficou lá... babando semicolcheias.
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Conheça uma outra versão desta história clicando aqui.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Prova de recuperação

Sempre achei que nos dias nublados o verde é mais verde. E como gosto de verde, gosto também dos dias nublados.
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Hoje o dia está especialmente cinza. Verde, logo. Esta manhã se preparou para compensar (e quem sabe para simbolizar) toda a noite insone a pensar em O Ensaio sobre a Cegueira e na minha própria... a cegueira da vida, a cegueira dos passos mal dados, a cegueira dos que põem tanto a perder. Bem, essa cegueira pouco tem a ver com a cegueira de O Ensaio, mas é fato que uma cegueira leva a outra ou, ao menos, torna-nos conscientes dela. De qualquer forma, o nubladinho choroso estava ali e me veio como a chuva cândida e santa, a consolar o choro chorando junto, e marcado com pinceladas daquele verde de que tanto gosto: o verde dos que esperam.
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A manhã se abriu assim tão especial porque o dia é especial: meu último dia de UFRGS, último compromisso como graduanda, última(?) visita ao olímpico Campus do Vale, minha última prova. E prova de recuperação! O nome não poderia ser mais adequado, porque finalmente fui apresentada ao Saramago, e isso não é coisa de que se recupere assim tão facilmente. Esse autor foi o melhor ponto com o qual eu poderia ter finalizado o curso. Já me justifico: embora o ponto caiba aqui figurativamente, conscientizo-me do quase sacrilégio em reduzir o escritor a isso. Posso afirmar, então, que por mais candente, dolorido e cru que tenha sido O Ensaio, o belo Ensaio, para mim ele veio acompanhado do verde, mas um verde mais escuro: aquele dos que finalmente conheceram Saramago, mas que sabem que perderam por esperar.
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terça-feira, 9 de junho de 2009

Noite na Taverna

A UFGRS tem recantos privilegiados. Alguns oásis. Um deles é o setor onde estão os livros raros (COE), na BSCSH. O acesso a essa sala é restrito, mas se você solicitar com muito jeitinho a entrada ao plantonista, ele permite.

De vez em quando eu e alguns amigos passeamos pelos corredores, pelas prateleiras, tocando, folheando, acariciando aquelas riquezas, cujo cheiro, textura e capa são tão atraentes e prazerosos quanto o conteúdo. Tempos atrás, eu e o Daniel olhávamos alguns tomos de capa dura do século XIX, quando um livro atraiu a atenção pelo tamanho, sobressaindo-se dos demais. Como a capa era de papel, foi preciso cuidado para removê-lo dentre os outros. "Álvares de Azevedo - Noite na Taverna, Contos fantásticos, Macário", da editora Globo. Difícil ter encontrado algo melhor. A edição é ilustrada, data de 1952. A tiragem foi de 1.200 exemplares numerados e todos assinados pelo ilustrador João Fahrion. Fotografei as imagens. Aqui estão algumas delas:
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[Ilustração de João Fahrion - imagem: Edna Regina Hornes]

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[Ilustração de João Fahrion - imagem: Edna Regina Hornes]
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[Ilustração de João Fahrion - imagem: Edna Regina Hornes]
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[Ilustração de João Fahrion - imagem: Edna Regina Hornes]
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[Ilustração de João Fahrion - imagem: Edna Regina Hornes]
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Não sei quanto a você, mas eu nunca tinha ouvido falar do Fahrion, a não ser por uma sala com seu nome na Casa de Cultura Mário Quintana. Deixo, então, alguns dados, pelo menos pra não passar em branco (e para aguçar sua curiosidade): o portoalegrense João Fahrion nasceu em 1898; foi pintor, ilustrador, desenhista, professor de artes plásticas na UFRGS; estudou e se aperfeiçoou em vários países (dentre eles, Alemanha e Holanda), aos pés de mestres respeitados; faleceu em 1970.

Fahrion não é o único lá no COE. As prateleiras guardam outras muitas surpresas. Basta curiosidade, paciência e um certo tino pra garimpagem. Assim você encontra a primeira obra publicada no Brasil, um dicionário de português elaborado pelo português Antônio de Moraes Silva, em 1813. Conhece? Não? Então vá lá!
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quinta-feira, 28 de maio de 2009

Meninos, eu vi!

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Difícil descrever algo que não aconteceu, mas eu vi. A tarde estava ensolarada. A Andradas, movimentada. Sentei num banco, sozinha, no quarto andar do Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo, sala O Retrato, cujas paredes estavam repletas de grandes fotografias em preto-e-branco retratando o cotidiano do Érico em casa, na rua, com a família.

Eu ouvia música naquele momento em que meus olhos se fixaram numa fotografia em especial, que mostrava a mesa de trabalho em primeiro plano, a máquina de escrever e outros objetos sobre a mesa e as estantes atulhadas de livros, ao fundo. O Érico estava em pé, olhando para um ponto qualquer não visível através da janela, à esquerda da fotografia. Parecia concentrado ou um tantinho distraído, o que dá na mesma. Pensando agora, acho até que ele estava com uma mão no bolso esquerdo. Aparentemente não percebeu que havia sido clicado.

Aquela música foi envolvendo o ambiente, imiscuía-se na imagem de forma que cheguei quase a pensar que havia um toca-discos na tal biblioteca e que o Érico também a estava ouvindo. Foi quando o vi sair de frente da janela e andar para um lado da biblioteca, devagar, pensativamente. Olhei de novo e ele tinha voltado para a janela, o espertinho.

É nessas horas que penso que se imagem diz tudo, imagine se os outros sentidos fossem estimulados, todos ao mesmo tempo. As imagens fariam tudo... sugeririam ações, conceitos, mensagens e ideias de uma forma muito mais intensa e dinâmica do que apenas como "meras" imagens.

Não lembro mais que música era a que, unida à imagem, sugestionou os passos pensativos do Érico. De qualquer forma, as que ouvi depois não produziram tal efeito alucinógeno, o que me fez concluir que se músicas específicas combinadas sinergicamente a fotografias específicas produzem uma terceira obra, não será tão cedo que vou ver o Érico passear de novo.

Não tem problema. Vou tentar de novo no MARGS, ali na pinacoteca APLUB. Quem sabe, com um pouco de sorte, uma borboleta saia voando de um Weingartner.
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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Quebra de rotina

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Chegou em casa. Cumprimentou a esposa, abriu a geladeira, pegou uma cerveja e deixou-se cair no sofá, em frente à televisão. Com o controle na mão, mudava constantemente de canal. Olhar ao léu. Preocupado, sentia-se estranho desde o último serviço. Os programas passavam por seus olhos distraídos, quando viu num noticiário policial o retrato falado de um assassino profissional. O coração bateu forte. E agora? O desenho não é bom, mas posso ser reconhecido.

Desde o último crime, sentia que não havia sido perfeito. Lembrou-se que havia sentado no chão, encostado à parede fria, mãos na cabeça, a olhar para a vítima ensanguentada. Parecia ter esquecido de um detalhe. E pensou no primeiro crime que cometera. Sabia que mesmo que em cada caso houvesse um inusitado requinte de crueldade, fazia tudo sempre igual. Era conhecido como Judas Iscariotes, por pendurar suas vítimas numa corda e abrir seu abdômen em forma de cruz, espalhando as vísceras pelo chão. Nunca se esquecia de pronunciar o viático sacramentum exeuntium, para a boa viagem de cada uma.

A televisão ainda ligada. Já pensava alto. Da cozinha, sua esposa pergunta:

- Sim, meu bem?
- Nada, não.

O entrevistador conversa com uma pessoa que diz saber quem é Judas, mas que não quer ser reconhecida. Ela está numa sala escura, de costas, e sua voz é distorcida. De olhos arregalados, Judas grita. A esposa vem em sua direção, mãos ensaboadas, perguntando o que havia acontecido.

- Foi você, sua cadela!
- O quê?!
- Eu reconheci o cabelo crespo e a blusa listrada!

Sem falar mais, vai à cozinha seguido da esposa embasbacada, que perguntava qual era o problema. Pega uma faca na gaveta, vira-se e a enfia no umbigo da esposa. Tapa a boca dela com a mão. Corte em cruz. Sobe para o quarto do filho. Algum tempo depois, a polícia chega com a vizinha de Judas, dizendo que havia ouvido ruídos estranhos na casa.

- É ele? pergunta o policial, apontando para um corpo inerte.
- Sim, é ele, responde a vizinha. Tinha cabelo crespo e usava blusa listrada.
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Moral da história: não compre na Renner.
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terça-feira, 28 de abril de 2009

João, o matemágico

Adoro o João. Admiro a capacidade que ele tinha de garimpar as palavras, desbastar seus poemas até tornar aquela estrutura absolutamente completa em si mesma mantendo apenas os elementos essenciais. Admiro sua concisão por ser, talvez, o oposto dele. Sou prolixa feito novelo sem ponta. Eu me definiria, inclusive, como adjetivágica. Basta olhar: sempre uso 3 adjetivos para qualificar algo... e não me pergunte por que faço isso.
Talvez por ser assim, eu justamente tenha escolhido a prosa como instrumento discursivo, pois para mim seria sufocante me expressar por poemas, embora os ame. Sou escrevedora do "flutual", fluviante, que boia na água do alguidar, confesso. Admiro o João também porque ele conseguia dizer o que queria através daquela estrutura engessante, apertadinha. Rolha de bom vinho. Arte concisa, estruturada, poesia substantiva, em que todo o excesso era removido e suprimido em nome do estritamente básico. Tire uma palavra e o arcabouço palavral é comprometido. É, bem-aventurado aquele que pelo poema faz toda essa mágica.
Meu consolo é que o próprio João se dizia pouco à vontade quando resolvia se arriscar na prosa, e pasme: quando o fazia, sentia "não ser ainda capaz de dizer o que quer e como quer", conforme afirmou Luís Costa Lima. Engraçado, pelo menos partilhamos dos mesmos sentimentos (ele na prosa e eu na poesia). Mas não me comparo assim a ele, não... na verdade, quanto aos meus feijões-palavra, se soprasse sobre eles para remover a palha e o eco... sobraria o quê? Intenção e não-dito. Felizmente, ainda sobram algumas pedras-mestras. E eu as ouço e as frequento.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Ilha do Mel

É, eu tinha que falar disso em algum momento. Principalmente em decorrência dos momentos que tenho vivido.

Por diversos motivos não citados aqui, tenho repensado, ad nauseam, minha vida, valores, ideais, objetivos. Alguém conhecido que passou pela mesma situação, anos atrás, usou uma ilustração muito interessante a respeito dessa reciclagem existencial por que havia passado, a qual reproduzo aqui. Para ele, sua vida assemelhava-se a um armário lotado de papéis de modo totalmente desorganizado. Houve um momento em que ele tomou coragem de reorganizar tudinhotudinho, "folha por folha". Sim, a coisa foi radical e profunda. Dolor, portanto. Pra começar, tirou tudo de lá de dentro da cabecinha dele. Reavaliava meticulosamente cada folha, remanejando-a para outra prateleira mental (creditando-a outro valor, peso ou interpretação), mantendo-a no mesmo lugar, ou, ainda, jogando-a fora. Incorporei à minha experiência corrente tal ilustração, que elucida muito bem o estado mental em que me encontro. Pois bem, estou reorganizando a papelada.

E como para organizar é preciso desorganizar, eis a baderna instalada no meu mundinho. Neste período, tenho me tornado mais contemplativa e silenciosa que o costumeiro, e, pra tais momentos, nada melhor que um cenário inspirador onde a beleza e a perfeição reinam, um lugar oposto à desordem do meu eu, para, de certa forma, ajudar a arrumar a zona interior de fora pra dentro. É aí que a ilha entra.

A perfeição abunda (e desbunda) em todos os recantos daquele lugar paradisíaco. Desde que estive lá, não consigo imaginar lugar mais perfeito, plácido e terapêutico que a Ilha do Mel. Confesso que quando a conheci, estava estressada ao limite, e o contraste entre minha vida e o ritmo da ilha trouxe uma paz imensa, da qual eu precisava há muito. Há quem diga, ainda, que eu poderia ter sido sugestionada pelas agradáveis companhias, pela quietude e isolamento (mesmo em alta temporada) do local, pela simplicidade e desapego dos nativos, pelos questionamentos que ronda(va)m minha mente, pelos quase 3 anos seguidos sem férias... enfim, por uma gama de fatores que, combinados, teriam me levado a amar a ilha. Tá, mas precisa de mais alguma coisa pra gostar de um lugar desses? Well, above all these things, a Ilha do Mel é a Ilha do Mel, pelamordedeus. Já foi pra lá?



[Praia do Miguel - Ilha do Mel, PR - Imagem: Edna Regina Hornes]

A vida da ilha foi uma paulada na minha cabeça. Eu, que sempre questionei os valores ocidentais de sucesso e felicidade enlatada, sempre admirei os bichos-grilo, a vida simples, estava (e estou), na verdade, sendo passiva e magistralmente englobada pela máquina e virando picles.

E quanto mais você reza, mais assombração aparece, conversei, há uns dias, com um grande amigo que hoje mora na Barra da Lagoa, Floripa. O cara, corajosamente, abandonou aquilo que a sociedade ocidental prega como vida de sucesso (emprego, faculdade, carreira, fazenda-com-vaquinha-premiada, blablablá) e jogou tudo pro alto. Hoje tem um charmoso chalé onde recebe turistas estrangeiros; passeia com os gringos pra lá e pra cá pelos recantos floripanos; cultiva um lindo jardim, cuida dos gatos e cachorro, recebe amigos com drinks descolados. Pô, também quero! Onde foi que eu me perdi que acabei parando aqui? E não é só isso. Tem também o meu amigo que me apresentou a ilha, amigo de décadasss. Trabalhou na AUDI Brasil/Alemanha, é trilíngue, viajadérrimo. No meio da estrada, sentiu um vento nordeste, largou o Mamom e foi viver. Optou pelo simples. Morou 1 ano na ilha, é instrutor de paragleider, voa pelo mundo todo, feliz e esvoaçante.

Aí é que a coisa engasga. Quais são os meus sonhos, desejos, valores reais e primários? O que considero realmente importante pra mim? Eu tenho buscado trilhar o meu caminho com vontades e objetivos claros ou acabei me desviando, me deixando levar pelas circunstâncias, pelas "oportunidades" apresentadas, portas que se abriram? O que eu tenho é o que eu quero? O que eu quero estou buscando? Um dia vou encontrar?

Ufa! Vamos parar aqui por hoje. Há ainda muito o que arrumar. Ah, mas o que ainda sinto e não esqueço é do gosto e do aroma do mel, mais forte e inebriante que o absinto, pois:

"... Assim como o favo de mel é doce na sua língua, assim também a sabedoria é boa para a sua alma. Se você a conseguir, terá um bom futuro e não perderá a esperança." (Provérbios 24:13-14)


Amém!


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